terça-feira, 24 de junho de 2008

A Caixa Mágica de Engraxar!

São Paulo - São 6 horas da manhã em São Paulo, e já começa mais um dia de labuta na vida de meninos que sonham com um futuro melhor. Nas costas, carregam a caixa de engraxar, e, na mente, planos de um amanhã repleto de oportunidades. O rádio, amigo inseparável, alegra as manhãs e tardes de trabalho. A graxa, o pano e a escova, completam as ferramentas que trarão o pão de cada dia e o sustento de algumas famílias que residem na periferia paulistana e contam com o sofrido dinheiro dos engraxates para se sustentar.Alguns desses garotos vivem na rua. Optaram por engraxar a viver sob os olhos do governo, da Febem ou de orfanatos. Muitos fugiram de casa por serem agredidos pelos seus pais ou padrastos. Todos adotaram a praça da Sé e da Republica como o seu habitat. Lá, se encontram centenas de engraxates, na faixa de 14 a 18 anos, garotos surrados pelo tempo e cheios de histórias tristes e curiosas. Muitos são confundidos com assaltantes e trombadinhas, misturando-se com todos os grupos urbanos, outros vendem bala, entregam folhetos, fazem malabarismos nos semáforos, entre outros bicos.Pedro Luiz, de 14 anos, reside no bairro de Itaquera, em São Paulo. Ele fala de sua infância e de seus sonhos: “Queria ser bombeiro, vivia colocando fogo nos papelões”, conta. “Depois quis ser jogador de futebol. Me inspirava no Romario.”O mundo dos engraxates também convive com o uso de drogas. As drogas estão presentes desde cedo na formação e vivência dessas crianças, que não têm muita informação ou discernimento. A maioria dos garotos não concluíu sequer o ensino fundamental. Mas, segundo Mathias Silva, de 15 anos, a maior indignação dos meninos é com o preconceito: ”A polícia nos intimida e nos classifica como malandros, aproveitando-se da pouca leitura e conhecimento que possuímos.”A "tribo" urbana dos engraxates é chamada de “família” por muitos que estão nesse meio. Eles se comunicam freqüentemente por meio de gírias, aliás. Uma das mais usadas é "laricar", que significa matar a fome ou lanchar. O dinheiro ganho no fim do mês é conhecido como "pagodinho", numa menção ao gênero musical. De fato, muitos dos meninos gostam de samba e o seu grande ídolo é sambista Zeca Pagodinho. Por isso, também, eles freqüentam barzinhos, nos quais a mesa de pagode acompanha o chopp e a cerveja, bebida degustada desde cedo.Outo ídolo dos engraxates é Vinícius de Oliveira, o Josué do filme Central do Brasil. Eles confessam que sonham com um país com mais oportunidades e menos violência, que não os faça depender da mesma sorte que teve o ator-mirim descoberto por Walter Salles. Em suas referências, também se encontra a velha frase do Rei Pelé: "Vamos olhar para as nossas crianças, vamos formar o futuro da nação". No entanto, a lembrança mais presente é a de tragédias, como a chacina ocorrida na igreja da Candelária, no Rio de Janeiro, em que morreram oito meninos, entre eles, alguns engraxates.

Jornalista: José Luiz Ribeiro